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24/01/2017

Lavoura sem internet limita avanço de precisão no campo

Por Bettina Barros, de São Paulo


Até pouco tempo, detectar um praga na lavoura era um trabalho que poderia levar dias, sob risco de comprometer toda a safra. Analisar as condições do solo também não era rápido, muito menos mudar o plano de ação no caso de eventualidades. Mas isso tem mudado. A pressão por mais produtividade agrícola fomentou um novo mercado de soluções digitais que acelerou a tomada de decisão no campo, gerando um salto de gestão sem precedentes. Só um problema persiste: para conectar os processos produtivos é preciso acesso à internet, algo ainda distante da realidade da maioria das lavouras do país.

 

Uma pesquisa realizada com três mil produtores aponta o buraco tecnológico das fazendas do país: as conexões 3G chegam a apenas dois em cada dez produtores rurais brasileiros. Sem essa conexão, os programas desenvolvidos para auxiliar os operadores a detectar problemas e agir, ou planejar comais precisão o desenvolvimento da safra, são limitados.

 

“Ao contrário das fazendas americanas, somente uma minorias das propriedades do Brasil tem 3G, como na região de Sorriso”, diz Luiz Tangaria, CEO da Strider, empresa focada em tecnologias para otimizar a produtividade do agronegócio e responsável pela pesquisa. “O resto é sincronização. Os dados são inseridos no tablete ou celular no campo e descarregados na sede”.

 

Alguns fatores explicam as estatísticas. Primeiro, as soluções digitais são ainda novas no campo brasileiro, o que atrasa a adoção e o consequente desenvolvimento de infraestrutura na comparação com outros países. Pesa muito o alto custo para levar uma antena de telefonia para dentro da propriedade rural. Outro fator é que a cobertura telefônica no país tem falhas na própria área urbana, mais densa que o campo e prioritária para as operadoras telefônicas.

 

“Só as propriedades rurais localizadas próximas de uma cidade podem se beneficias hoje dessa conexão”, afirma Tangaria, da Strider.

 

Uma conexão melhor é vista como crucial para o Brasil usar soluções digitais que as agtechs – como são chamadas as startups votadas ao agronegócio – e multinacionais do setor prometem para acabar com as “dores do campo”. Já há disponível no país dezenas de programas envolvendo alta complexidade para melhorar a eficiência e antecipar problemas - como uma chuva forte, que carregaria os esforços de plantio de sementes. Mas isso só é possível se a fazenda estiver online.

 

“A aplicação química, por exemplo, é distribuída por talhões. Cada dia, um recebe a aplicação. Mas no caminho começa uma chuva repentina. Se o produtor não estiver conectado, ele não consegue ver a informação [transmitida por sensores de campo] e cancelar ou redirecionar a operação para outra área”, diz Mariana Vasconcelos, sócia da Agrosmart, uma das agtechs em atuação no país. “Ter informação online é a diferença no tempo de resposta a uma situação”.

 

Há dois anos no Brasil, a Climate Corporation, da Monsanto, tem no baixo acesso à internet um de seus problemas pare deslanchar no país. “Aqui, a conectividade ainda é um desafio”, afirmar Mateus Barros, líder comercial para a América do Sul da Climate, que se baseia em modelos computacionais para o gerenciamento das lavouras diante de condições meteorológicas.

 

Desde que chegou ao país, a companhia tem trabalhado para “tropicalizar” seu produto – desenvolvido para lavouras do Hemisfério Norte, com características distintas -, o que incluiu torna-lo operacional no modo off-line. “Nos EUA, todos o equipamentos operam online, mas aqui tivemos que fazer essa adaptação”. Em fase de teste, a tecnologia deverá chegar ao mercado brasileiro neste ano.

 

Para contornar a baixa conectividade, a Agrosmart desenvolveu dispositivos similares ao modem acoplados a seus sensores. Grosso modo, eles conseguem repassar os dados de campo de um a outro no raio de 14 km – tal como o repetidor faz em casa -, até que a informação chegue à sede da fazenda.

 

Mas saídas como essa não são comuns, diz Thiago Lobão, sócio da gestora SP Ventures, que investiu na Agrosmart. As soluções digitais ainda carecem da infraestrutura de conexão para atingir o seu desempenho ótimo no Brasil. Para ele, o avanço das agtechs, a digitalização de grandes grupos do agronegócio e o barateamento de opções 3G – como o uso de satélites – tendem a levar a uma conexão melhor já em dois ou três anos. “Há muita gente tentando fechar esse buraco”, diz.

 

Seja como for, os avanços obtidos até agora não são desprezíveis. Se por um lado o 3G é mínimo, as antenas de rádio possibilitaram a chegada da internet à maioria das sedes das fazendas brasileiras. Não é pouca coisa. Graças a elas, o produtor conseguiu dar um passo importante para rodar programas simples de gestão e coleta de dados para análise posterior.

 

A pesquisa da Strider mostra que 98% das fazendas acima de 10 mil hectares já têm acesso à rede. Em mato grosso, a percepção desse sinal é “profissional” e “normal” para boa parte dos produtores, mas “precária” e “ausente” em alguns polos. Com buracos na rede, os esforços de digitalização rural continuarão sendo só um trabalho pela metade.

 

Fonte: Valor Econômico, 24/01/2017.